Dugin, Luganski, armas de fragmentação: os termos para entender melhor o conflito


Imagem de Chernobyl, onde ocorreu o maior acidente nuclear da história, e uma das primeiras cidades a serem tomadas pelos russos| Foto: EFE


Porto Velho, RO - Personagens envolvidos no conflito entre Rússia e Ucrânia, expressões militares usadas nas reportagens e até situações históricas citadas para contextualizar os fatos têm gerado curiosidade por não serem tão comuns no noticiário. Confira o glossário com informações a respeito dos principais termos usados nas matérias relacionadas à Guerra da Ucrânia. Este conteúdo será atualizado durante todo o conflito e seu objetivo é auxiliar o leitor com um breve resumo dos temas.

Alexander Dugin

Filósofo russo que influencia Vladimir Putin e , há 20 anos, incentiva seu país a invadir a Ucrânia. Segundo ele, o destino dos russos é formar um novo império composto pelo Leste Europeu e pela Ásia com poder de se contrapor à zona de influência dos Estados Unidos. Um de seus principais argumentos é que o Ocidente prega valores que não seriam universais à humanidade. Ele também defende o uso da violência e já disse que é possível adotar do nazismo e do fascismo práticas válidas para resgatar a antiga grandeza do império russo.

Armas termobáricas

Também chamadas de bombas de vácuo, são conhecidas por seu terrível poder de destruição. Foram criadas pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial e costumam ser identificadas pelas enormes nuvens em formato de cogumelo que formam. Essas bombas são muito utilizadas em ambientes urbanos, pois conseguem penetrar edifícios, trincheiras e bunkers, e têm poder de matar suas vítimas sem deixar sinais externos. No entanto, ainda que tratados internacionais não regulem diretamente o uso de bombas termobáricas, seu uso contra áreas povoadas pode configurar violação de tratados internacionais sobre leis e crimes de guerra, como as convenções de Haia. A Rússia tem sido acusada de usá-las contra civis na guerra da Ucrânia, mas o Kremlin nega.

Babi Yar

Local, em Kiev, do primeiro massacre de judeus pela Alemanha nazista no dia 29 de setembro de 1941. Estima-se que 33,7 mil judeus tenham sido mortos em 48 horas, eliminando praticamente toda a população judia da cidade e dando início à matança sistemática que se tornaria o Holocausto. Um monumento foi levantando pelos ucranianos no local do massacre, mas foi atingido pelas Forças Armadas da Rússia durante bombardeios no início de março.

Bombas de fragmentação

Também chamadas de "clusters", se dividem em submunições no momento da explosão. Com isso, deixam inúmeras vítimas, já que as partes menores se espalham para todos os lados em grande velocidade, em vez de atingir um alvo específico. Além disso, algumas dessas submunições não explodem no momento do ataque e podem ficar "adormecidas" durante longos anos após o fim da guerra, transformando o território em um campo minado. Seu uso é condenado pela comunidade internacional e também foi denunciado pelo uso em solo ucraniano.

Chernobyl

Cidade ucraniana localizada a cerca de 20 km do maior acidente nuclear da história. O desastre aconteceu em 26 de abril de 1986 durante um teste de segurança na Usina de Chernobyl, onde engenheiros procuravam uma maneira de resfriar os reatores em caso de corte de energia por algum inimigo. 

No entanto, uma série de falhas e de reações químicas no núcleo do reator 4 fizeram com que a sua potência aumentasse em vez de diminuir, chegando a 10 vezes mais do que sua capacidade máxima e causando a primeira explosão. Logo depois, a entrada de oxigênio gerou novo estouro, que arrancou o teto de mil toneladas da usina e liberou material radioativo 400 vezes maior que as bombas de Hiroshima e Nagasaki. 

O governo da União Soviética tentou minimizar o acidente e só iniciou a evacuação do distrito industrial de Prypyat 36 horas após o ocorrido. Além disso, comunicou o fato a outros países apenas depois que cientistas da Suécia e Finlândia detectaram radiação no ar. Estudos apontam que 600 mil pessoas foram afetadas direta ou indiretamente pela radiação. Durante a guerra na Ucrânia, a região da usina foi uma das primeiras a serem tomadas pelos russos.

Corredor humanitário

Zona de trégua do conflito que permite passagem segura de civis e de ajuda humanitária para populações sem suprimentos básicos como água, remédios, eletricidade e alimentos. Desde os primeiros ataques de Vladimir Putin, o governo ucraniano solicita o cessar-fogo em algumas regiões do país para o estabelecimento de corredores humanitários e afirma que 125 mil pessoas já fugiram por essas zonas de trégua. Vale ressaltar que as áreas desmilitarizadas também abrem espaço para o fornecimento de armas à força sitiada de forma ilícita.

Crimeia


Região do Mar Negro pertencente à Ucrânia que foi anexada por Moscou em março de 2014. Na época, o povo ucraniano se dividiu entre os que desejavam maior integração com a Rússia e aqueles que apoiavam a aliança com a União Europeia. Muitos protestos tomaram conta do país, o então presidente pró-Rússia — Viktor Yanukovych — foi deposto e Moscou decidiu intervir, apoiando as regiões separatistas no leste da Ucrânia e anexando a Crimeia.

Donbass

Também chamada de bacia carbonífera de Donets ou Donbass, essa região histórica no leste da Ucrânia e sudoeste da Rússia possui diversas indústrias de carvão, metalúrgicas e outras empresas. A área se divide em duas cidades: Luganski e Donetsk, que estão nas mãos de separatistas apoiados pela Rússia desde abril de 2014, quando eles tomaram prédios governamentais e se autodeclararam repúblicas.

Donetsk

Uma das cidades no leste da Ucrânia pertencentes à região de Donbass que se intitularam repúblicas, em 2014. Tem mais de 2,3 milhões de habitantes, foi chamada de República Popular de Donetsk (RPD) e teve sua independência reconhecida pela Rússia oito anos depois. Essa independência não foi reconhecida pela ONU.

FSB

É o Serviço Federal de Segurança da Rússia, uma das duas agências de polícia secreta que sucederam a antiga KGB no país. Foi criado em 1995 e tem o objetivo alegado de combater qualquer ameaça ao estado russo que ocorra dentro da federação.

Holodomor

Fome generalizada que atingiu a Ucrânia em 1932 e 1933, deixando entre 3,3 a sete milhões de mortos. A Ucrânia e outros 15 países – como Portugal, Canadá e Argentina – tratam o tema como um genocídio. O massacre foi conduzido por Josef Stalin, líder da União Soviética, que queria forçar os ucranianos a entregarem suas propriedades ao Estado para a coletivização da agricultura. Os fazendeiros que se rebelavam eram presos ou fuzilados, e todo o alimento disponível era confiscado. As pessoas eram proibidas de pedir comida em regiões vizinhas e morriam à míngua. Agora, esse fato volta ao noticiário como lembrança do sofrimento que o povo ucraniano já enfrentou sob o poder de ditadores e torna-se um forte argumento para o povo não se render às solicitações russas.

Igreja Ortodoxa Russa

Dirigida pelo Bispo de Moscou, essa igreja possui cerca de 28 mil paróquias — a maioria na Rússia, Ucrânia e Belarus — e soma mais de 135 milhões de adeptos ao redor do mundo, sendo a maior igreja ortodoxa do planeta e a segunda entre igrejas cristãs, atrás da Igreja Católica. Seu líder é chamado oficialmente de “Patriarca de Moscou e de Toda a Rússia” e tem defendido a invasão à Ucrânia como uma ofensiva ao Ocidente e seus valores “decadentes”. Essa defesa à guerra causou rupturas dentro da igreja, já que o posicionamento do bispo é condenado pelas Igrejas ucranianas e por alguns sacerdotes da Rússia.

Igreja Ortodoxa Ucraniana


É a maior denominação cristã na Ucrânia, com 11.393 paróquias. Ela integra a Igreja Ortodoxa Russa, mas parte de seus adeptos não aceita estar sob o poder do país vizinho. Com isso, a igreja possui duas comunidades distintas na Ucrânia: uma que permanece fiel ao Bispo de Moscou e outra independente. No entanto, mesmo que tenham diferentes crenças políticas, as duas vertentes da igreja condenam a guerra da Ucrânia desde o início do conflito, pedem o fim da guerra e estão em processo de separação da Igreja Ortodoxa Russa.

KGB

Famoso serviço secreto da antiga União Soviética, é considerado o maior grupo de espionagem já existente no planeta com mais de 480 mil colaboradores espalhados pelo globo. A agência foi inaugurada no contexto da guerra fria, em 1954, e oficialmente dissolvida em 1991. O presidente russo Vladimir Putin, inclusive, atuou como agente secreto dessa entidade por 15 anos.

Kharkiv

Também chamada de Carcóvia, é a segunda maior cidade da Ucrânia e fica a cerca de 400 quilômetros de Kiev. Já foi capital do país entre 1919 e 1934, e tem quase 1,5 milhão de habitantes. É uma das cidades que os russos tentam tomar desde o início do conflito.

Kremlin

Com significado de “fortaleza dentro de uma cidade”, esse é o nome da residência dos presidentes russos desde 1991, em Moscou. Além disso, esse complexo fortificado foi construído em 1156 com muros medindo 2.500 metros de comprimento para proteger a cidade de ataques. Atualmente, a construção possui 20 torres — a maior delas com 81 metros de altura — e é um dos principais pontos turísticos de Moscou com museus, igrejas, prédios históricos e o Grande Palácio.

Lugansk

Também conhecida como Luhansk, é uma das cidades no leste da Ucrânia pertencentes à região de Donbass que se intitularam repúblicas, em 2014. O local tem quase 1,5 milhão de habitantes e foi chamado de República Popular de Lugansk (RPL). Sua independência foi reconhecida pela Rússia em 21 de fevereiro de 2022, mas não foi reconhecida pela ONU.

Mar Negro

Com cerca de 436.000 km² e profundidade de 2.210 metros, conecta a Europa Oriental com a Ásia Ocidental, banhando Ucrânia, Romênia, Bulgária, Turquia, Geórgia e Rússia. Esse mar é a principal saída marítima do território russo, dando acesso ao Mediterrâneo e ao Oceano Atlântico, e foi usado pelo país para uma das primeiras ofensivas à Ucrânia. Além disso, suas águas têm grande importância econômica devido ao trânsito de milhões de toneladas de trigo, óleo de girassol, petróleo, carvão mineral e aço. Tem coloração escura devido à presença de grande quantidade de sais minerais.

Oligarcas

Bilionários da elite do poder da Rússia e que, em sua maioria, fazem parte do círculo de amigos e colaboradores do presidente Vladimir Putin que sofreram sanções econômicas desde o início da guerra da Ucrânia. O termo significa “governo de poucos” e seu uso tem origem na época soviética quando, após a morte de Stalin, um pequeno grupo passou a tomar decisões para todo o país. A partir de 1991, o presidente Boris Yeltsin modificou essa estrutura e um grupo restrito aproveitou as reformas para se apoderar da riqueza nacional.

Otan

Também chamada de Aliança Atlântica, a Organização do Tratado do Atlântico Norte foi estabelecida em 1949 pelos Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, Canadá e outros oito países. Com o passar do tempo, ganhou novos integrantes e hoje conta com 30 membros. A aliança tem natureza político-militar, promovendo valores democráticos e cooperando em questões relacionadas à defesa e segurança dos aliados. 

Quanto à aproximação entre Ucrânia e Otan, a história é longa. O país do leste europeu manifestou interesse em aderir à entidade em 2002, mas o processo perdeu força em 2010 com o governo de Viktor Yanukovich, político apoiado por Vladimir Putin que não queria proximidade com a Aliança Atlântica, já que a Rússia vê essa organização como ameaça. Só que o presidente foi deposto em 2014 devido às manifestações populares e, em 2019, a Ucrânia promulgou emenda constitucional se comprometendo a aderir à Otan e à União Europeia. Em 2021, estabeleceu uma estratégia de segurança nacional para isso, e foi essa a possível causa do conflito com a Rússia.

Pacto de Varsóvia


Também conhecido como “Tratado de Amizade, Cooperação e Assistência Mútua”, foi a reação da União Soviética ao estabelecimento da Otan pelos Estados Unidos e seus aliados. Como o Ocidente tinha um novo bloco político-militar, a URSS estabeleceu uma aliança semelhante entre União Soviética e outras sete repúblicas socialistas para intimidar qualquer ataque que pudesse vir da Aliança Atlântica. 

Inclusive, documentos sigilosos divulgados em 2005 afirmam que os membros estavam dispostos a aniquilar a Europa com armas nucleares se eles entrassem em guerra contra a Otan. O acordo foi assinado em maio de 1955 na cidade de Varsóvia, capital da Polônia, e terminou em 1991, quando a União Soviética foi extinta.

SVR

É o Serviço de Inteligência Internacional da Rússia responsável pelas atividades de inteligência e espionagem fora da federação. Assim como a FSB, é uma das agências de polícia secreta que sucederam a antiga KGB.

SWIFT


O Serviço de Telecomunicações Financeiras Interbancárias é um sistema de comunicação que viabiliza o pagamento e a transferência de recursos entre empresas de diferentes países. Foi criado em 1973 e interliga 11 mil bancos e instituições financeiras em mais de 200 países, sendo propriedade conjunta de mais de 2 mil instituições. É fiscalizado pelo Banco Nacional da Bélgica (o BC belga) em parceria com outros importantes bancos centrais, e a retirada da Rússia do sistema foi usada como uma das sanções econômicas contra a invasão.

Ucranização


Política implantada desde o colapso da União Soviética, em 1991, para difundir a utilização da língua ucraniana no país e promover outros elementos de sua cultura. Para isso, o idioma ucraniano passou a ser a única língua oficial. O russo, segundo idioma mais falado no país, teve seu uso regulado no sistema educacional e em programas de TV, rádio e filmes, com exigência de legendas e dublagens em ucraniano. Além disso, feriados militares da União Soviética foram abolidos e novas datas passaram a ser comemoradas, como o Dia do Defensor da Ucrânia. O documentário “Ucranização” mostra um pouco desse processo e de como o povo ucraniano influenciou essa mudança.

União Europeia (UE)

Instituída oficialmente em fevereiro de 1992, é o maior bloco econômico do mundo, com 27 países e uma moeda única, o Euro. Há livre circulação de mercadorias, serviços e pessoas entre os membros, e garantia de política externa e de segurança. No entanto, diversos requisitos são exigidos para que um país possa ingressar na UE e um Estado só se torna membro de pleno direito dez anos após sua entrada. O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky assinou pedido para fazer parte do bloco com urgência, mas os países líderes da UE descartaram uma rápida adesão.

União Soviética

Constituída em 1922 e dirigida por Josef Stalin, após a morte de Vladimir Lenin, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) transformou 15 países — entre eles Rússia e Ucrânia — em uma única nação comunista. Após a Segunda Guerra Mundial, entrou em um conflito político-ideológico contra os Estados Unidos, capitalista, dando origem à Guerra Fria, que seguiu até 1991, quando a URSS foi desmembrada em vários países, entre eles, a Ucrânia.

Ursula von der Leyen


Atual presidente da Comissão Europeia, a alemã de 63 anos ocupa o cargo de maior poder na União Europeia (UE) e tem falado em nome dos países europeus durante o conflito entre Rússia e Ucrânia. Licenciada em Economia e doutora em Medicina, ela foi a primeira mulher no cargo de ministra da Defesa da Alemanha, liderou outros ministérios, e foi nomeada em 2019 para o cargo atual. Seu mandato tem cinco anos e pode ser renovado uma vez.

Volodymyr Zelensky


Presidente da Ucrânia desde 2019, se tornou conhecido pela sua bravura ao permanecer em solo ucraniano durante o ataque russo. Ele é ex-comediante, ator e proprietário de um dos estúdios de entretenimento mais bem-sucedidos do país.

Vladimir Putin

Atual presidente da Rússia que iniciou o confronto com a Ucrânia no último dia 24 de fevereiro. Está na liderança do país asiático há 23 anos, tem formação em Direito e integrou o Serviço de Inteligência Estrangeira da KGB entre 1975 e 1990.

Fonte: Por Raquel Derevecki

Postar um comentário

0 Comentários

Close Menu