Por que parece que os jovens não procuram estabilidade no emprego como antigamente?


Segundo especialistas, as gerações Y e Z querem reconhecimento, experiências e propósito na carreira.| Foto: Bigstock

Porto Velho, RO - É cada vez mais difícil encontrar funcionários que permaneçam na mesma empresa por 30, 50 ou 84 anos, como é o caso do brasileiro Walter Orthmann citado até no Guiness Book este ano como detentor da carreira mais longa dentro de uma única companhia.

O catarinense começou a trabalhar na cidade de Brusque em 1938 como auxiliar de expedição. Depois, passou a integrar o setor de vendas da malharia, se tornou assistente administrativo e hoje, aos 100 anos, é um dos gerentes. “E nunca pensei em parar”, afirma o idoso, ao garantir que o segredo é ter senso de propósito, rotina definida e se sentir bem. Afinal, “quando a gente faz o que gosta, nem vê o tempo passar”.

Mas por que essa realidade mudou tanto, e hoje é comum ver colaboradores deixarem o emprego pouco tempo depois da admissão? Segundo o CEO Richard Uchoa, da LEO Learning, empresa de soluções digitais para treinamento e desenvolvimento corporativo, isso é resultado das diferentes gerações de profissionais que atuam no mercado: “os Baby Boomers e as gerações X, Y e Z, cada uma com suas características”.

Segundo ele, os primeiros são trabalhadores que nasceram entre as décadas de 40 e 60, após a Segunda Guerra Mundial, e que são muito focados na estabilidade profissional e financeira. “Ou seja, queriam segurança no emprego para ter um salário fixo, comprar sua casa e conseguir uma vida estável”, explica, ao citar que a geração X, dos anos 60 e 70, ainda manteve essa característica, apesar de ser mais realista.

No entanto, os filhos das décadas de 80 e 90 – geração Y – começaram a deixar de lado a necessidade de manter-se no mesmo trabalho por anos e acumular bens. “Afinal, cresceram em um mundo de transformações intensas e passaram a ser movidos por desafios”, afirma Uchoa, ao citar ainda que a geração Z nasceu em um mundo completamente digital e globalizado, baseando suas escolhas no imediatismo e na experiência.

Com isso, a psicóloga Gislayne de Souza Carvalho afirma que essas gerações mais recentes não olham somente o financeiro como motivação no trabalho, mas outros fatores como “qualidade das relações, status, poder, autonomia, reconhecimento e sua contribuição social naquela função”, enumera a especialista em gestão de negócios.

Além disso, ela explica que os profissionais da atualidade usam a tecnologia como ferramenta para expandir suas possibilidades de carreira ao conhecer pessoas e empresas de diferentes regiões. “Então, não ficam mais limitados ao local físico em que se encontram, às vagas de emprego disponíveis na comunidade ou ao trabalho da família, como acontecia anteriormente”, compara, ao citar que ainda há influência familiar, mas que as escolhas individuais têm sido cada vez mais respeitadas.

Nesse contexto, os jovens também têm buscado empresas com propósito no que fazem, que foquem no bem-estar dos funcionários e que os valorizem como indivíduos. Ou seja, “não cabe mais aquele paradigma em que a vida profissional é uma coisa e a vida pessoal, outra”, aponta Gislayne, ao citar que esses têm sido fatores determinantes para novas experiências na carreira.

O que as empresas devem fazer?

Por isso, o CEO Richard Uchoa afirma que as companhias que desejam reter bons talentos em seu rol de funcionários precisam se atualizar, reduzir estruturas burocráticas e investir em reconhecimento. “É preciso oferecer experiências diferentes, porque você não vai manter um jovem se ele ficar três ou quatro anos fazendo a mesma coisa”, exemplifica, ao afirmar que os profissionais de hoje buscam crescimento e propósito.

E o catarinense Walter Orthmann afirma que isso vale para qualquer geração. Segundo ele, o que fez a diferença em seus 84 anos de empresa foi o fato de ser reconhecido nas pequenas e grandes conquistas. “Qualquer coisa bem-feita é valorizada aqui, sem contar que os diretores se dão bem com cada funcionário e os cumprimentam todo dia”, relata ao Sempre Família.


Segundo o catarinense Walter Orthmann, o que fez diferença para trabalhar 84 anos na mesma empresa foi o reconhecimento que sempre recebeu. Foto: Divulgação/Renauxview

Busca pela excelência

Só que ele aponta que cada colaborador também deve fazer sua parte para que isso aconteça. “Você não pode entrar no emprego já querendo ser presidente, mas deve começar pequeno, se dedicar em cada tarefa e ir subindo, como aconteceu comigo”, relata o centenário, lúcido e ativo.

Além disso, ele orienta os jovens a fazerem cursos e adquirirem conhecimento para colocarem em prática no trabalho. “Principalmente com tanta tecnologia disponível hoje”, comenta, ao garantir que um colaborador dedicado desempenhará bem seu trabalho, e será valorizado. “Dessa forma, o crescimento virá, aos poucos”, finaliza.

Fonte: Por Raquel Derevecki

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