Raymond Aron, o sociólogo da liberdade


Raymond Aron durante palestra na Espanha em 1976: o maior liberal francês da segunda metade do século XX| Foto: EFE

Porto Velho, RO
- Certa vez, ao chegar ao campus da universidade, me uni a um grupo de estudantes e professores que conversavam sobre política e lados ideológicos. Um dos professores mais militantes da causa socialista naquela roda fez uma observação que jamais me esqueci: ele disse que um dos autores liberais mais eloquentes, interessantes e desconcertantes era o sociólogo francês Raymond Aron. Dizia ainda o catedrático que o liberalismo de Aron era um tanto quanto impactante, pois se fiava em uma análise sociológica desapaixonada de causas políticas, não perecia que o francês era liberal para além da necessidade racional de sê-lo.

Lembro que guardei aquele nome e, ao chegar em casa, comprei o seu mais famoso livro, 'O Ópio dos Intelectuais'. Posso dizer sem nenhum pedantismo que, ao terminar a leitura do referido livro, comecei a enxergar a universidade e a política com uma mentalidade totalmente diversa da que tinha antes.

Raymond Aron reformulou minha visão política e sociológica em apenas um livro, expandiu meus horizontes críticos e profundidades analíticas para muito além do que eu concebia até aquele instante. Por isso que, apesar de ser sim um liberal clássico, o filósofo e sociólogo francês tem que ser entendido antes como um pensador e erudito que é liberal na medida que debate e descortina os meandros da política moderna, e não como um militante de causas que faz de sua biografia acadêmica uma eterna apologia política de visões. Raymond Aron não era liberal per se, mas sim um liberal esclarecido, construído no natural processo de crescimento e vivência.

A Vida

Raymond Aron nasceu em Paris, em 1905, filho de um jurista de origem judaica e de uma dona de casa; sua família, como um todo, gozava de uma situação financeira abastada para os dias relativamente estranhos que antecederam à Primeira Guerra Mundial. Sua juventude é um tanto quanto nebulosa – biograficamente falando –, sabe-se, no entanto, que seu pai era rigoroso em matéria de estudos e que, desde cedo, inseriu no filho o gosto pela literatura filosófica.

Não foi preciso esforço muito grande dos pais, porém, para iniciar o filho na erudição acadêmica. Desde muito jovem, ele se mostrou desenvolto nos estudos de humanidade, e foi assim que, com 18 anos, em 1922, já se formara bacharel em Filosofia, se encaminhando imediatamente para pós-graduação em Filosofia da História na extremamente renomada École Normale Supérieure, uma das universidades mais disputadas e mais laureadas da Europa anterior à Segunda Guerra Mundial. Lá, de 1924 a 1928, foi colega de intelectuais como Paul Nizan, Jean-Paul Sartre e Georges Canguilhem. Em suas 'Memórias', disse que jamais encontrou tanta erudição e capacidade intelectual por metro quadrado como naquele espaço universitário.

No entanto, ao finalizar o tempo comum da graduação, Aron sofreu de uma espécie de crise existencial que, segundo ele próprio, o impedia de fazer tarefas simples do dia a dia. O francês tinha a percepção de que não sabia de nada mesmo após se dedicar muito em seus primeiros anos de universidade, que havia perdido tempo na sua graduação e que agora marinava em um desânimo sem precedentes.

Para tentar dar rumo à sua vocação, viajou para Alemanha e lá viveu de 1930 a 1933 como estudante, chegando a ministrar pequenas palestras na Universidade de Colônia, em 1931. É sabido também que, no final do período entre 1931 e 1933, Aron viveu em Berlim e lá foi residente da universidade que levava o nome da cidade.

Lá ele assistiu, em primeira mão, ao surgimento, estabelecimento e reviravolta política que fez de Hitler o Führer alemão e da ideologia nazista uma visão política de Estado cultuada como religião pela população adepta. Foi nesse instante que ele percebeu o quão perniciosa poderia ser a política totalitária, e, como veremos adiante, a partir dessa experiência, Aron fez do combate ao totalitarismo no campo intelectual o destino de sua carreira acadêmica.

No final de 1933, e por todo o ano de 1934, substituiu Sartre nas aulas no Lycée du Havre, conceituada instituição de ensino do país. No final de 1934 veio a se tornar secretário do Centro de Documentação Social da École Normale Supérieure, o que o habilitou a ministrar aulas na Escola Normal de Saint Claude. Em 1938 casou-se e teve sua primeira filha. Ainda em 1938, após atrasos na escrita da sua tese de doutoramento, finalmente ele a defendeu com êxito, sendo convidado logo depois a lecionar na Universidade de Toulouse. Não demorou muito, porém, ele foi convocado pelas forças de defesa da França para a conhecida “Guerra de Araque”, batalha que praticamente iniciou a Segunda Guerra Mundial.

Após a rápida queda da França, Raymond Aron vai para Londres, sendo seguido, meses depois, por sua esposa e filha. Foi em Londres que começou a trabalhar em jornais como colunista e tradutor, assinando os escritos com o pseudônimo René Avord. Desde então, até a sua morte, jamais deixou de escrever colunas, análises e ensaios para revistas e jornais. Destacava aos próximos que esses eram os principais meios de democratização social e de respiro da liberdade, e ante uma França em frangalhos, o esteio indispensável de reconstrução civil e cultural.

Em 1945, após o final oficial da guerra, o filósofo regressou a Paris. Em suas 'Memórias', essa é uma das passagens mais difíceis para o autor, ele diz que a França parecia morta, desalmada. Em seu regresso logo se dedicou, de forma especial, ao jornalismo e à crítica ensaística. Em um primeiro momento escreve no Les temps modernes de Sartre e também no Combat, o famoso jornal da resistência de Albert Camus. No entanto, é no Le Figaro que parecia se sentir à vontade para escrever suas ideias, tanto que lá permaneceu por 30 anos mesmo com suas posteriores funções catedráticas.

Cabe salientar que é nesse momento que as distâncias intelectuais e ideológicas entre Sartre e Aron – antes amigos e esgrimados oposicionistas contra o totalitarismo nazista – se intensificam. Em vários textos, Raymond começa a criticar aquilo que chamaria, em 'O Ópio dos Intelectuais', de “conformismo intelectual” dos eruditos franceses ante o totalitarismo soviético, como se a cegueira consentida ante os atos grotescos dos comunistas fosse uma resposta adequada e inteligente aos nazistas e fascistas – nesse momento fica publicamente claro o rompimento entre ambos os intelectuais.

Apesar de sua intensa atividade nas revistas e jornais franceses, não se afastou por completo do ensino. De 1944 a 1956, proferiu aulas em diversas instituições francesas que começavam a ser reerguidas após os anos de invasão nazista. Destaca-se, entretanto, a sua atuação na Institut de Sciences Politiques e na École National d’Administration, instituições de ensino que formariam a próxima elite política, militar e empresarial do país no século XX.

A década de 1950 foi especialmente dura para Raymond Aron, pois sua segunda filha, nascida em Londres, morre de leucemia apenas três semanas após o diagnóstico. Em julho desse mesmo ano a sua terceira filha, Laurence, nasce com Síndrome de Down e outras complicações. Em 1955, o francês entra para a famosa Sorbonne, na cadeira de Sociologia, agora já como um reconhecido professor, laureado e muito bem-visto pelos seus pares.

O restante de sua vida se deu em dois campos de atuação: a produção acadêmica especializada, mais voltada à sociologia e relações exteriores, e à crítica política em jornais e revistas. Suas ideias influenciariam um batalhão de novos liberais franceses. Na década de 1970, sua produtividade assumiu novos patamares, principalmente por aquilo que em seu livro 'Memórias' ele chamou de “amadurecimento das ideias”. Viajou para diversos países como um intelectual renomado, no Brasil foi especialmente estudado pela Universidade de Brasília nas décadas de 1970 e 1980. Essa mesma universidade sediou, nos dias de 22 a 26 de setembro de 1980, um simpósio internacional sobre o pensamento do francês.

Em 17 de novembro de 1983, Raymond Aron faleceu em decorrência de um ataque cardíaco, após retornar do famoso julgamento de seu amigo, Bertrand de Jouvenel, que, naquela altura, estava sendo acusado injustamente de ter ajudado os nazistas na ocasião da invasão de seu país. Aron testemunhara como defesa do amigo. Foi um tanto quanto melodramático, assim como soa hoje ter sido historicamente necessário, que um espírito liberal tão distinto daqueles dias viesse a falecer após defender a liberdade de um amigo injustiçado. Alguns correlacionam o falecimento de Aron, poucas horas após seu testemunho em favor de Jouvenel, como fruto das acusações e calúnias que viu seu amigo sofrer naquele fatídico dia.

As ideias


O liberalismo clássico de Aron foi visto mais tarde como parte de uma reestruturação filosófica dos pais do liberalismo inglês. À época, o liberalismo era considerado uma das vertentes que a França precisaria revisitar em seu processo de restauração social e histórica. Com o passar dos dias, percebe-se que, ao contrário dos clássicos defensores do liberalismo daqueles dias, como F. A Hayek, o foco inicial do liberalismo de Aron seria a sociologia e a filosofia da história, e não a economia e seus pressupostos. Diferença essa que daria ao autor uma proeminência e uma aceitação mais vistosas entre seus pares franceses mesmo que o ambiente da universidade de Sorbonne tendesse à esquerda.

Cabe salientar, também, que não ficam muito claras as ideias econômicas de Aron para além do óbvio apoio geral ao modelo de livre mercado, pois alguns comentaristas afirmam que ele aceitava como ponderável certa intervenção do Estado nas pastas econômicas. Por isso, muitos na França, hoje, o relacionam ao pensamento social-democrata – vertente política muito forte naquele país em questão –, antes mesmo de um liberalismo clássico que ele mesmo abertamente defendeu.

Unido a isso, ele foi especialmente crítico à Escola Austríaca de Economia. Em 'French Liberalism from Montesquieu to the Present Day', Helena Rosenblatt mostra como o sociólogo francês considerava a filosofia daquela escola uma espécie de obsessão ideológica parecida com um marxismo ao contrário. Todavia, a tese de sua suposta postura social-democrata é plenamente contestável dado que, já em 1938, Aron havia participado do Colloque Walter Lippmann, encontro de intelectuais organizado por Louis Rougier que tinha o claro intuito de restaurar os princípios do liberalismo clássico que passava por uma forte descrença popular e acadêmica naquela década. Ao que parece, o compromisso de Aron com o liberalismo ideológico, apesar de não ser catequético, também não era relativizável. Mas esse é um debate para outro ensaio.

Na Sorbonne, ele então ministra seus cursos mais famosos, suas releituras filosóficas das sociedades totalitárias são inovadoras e profundamente fundamentadas, suas denúncias de intelectuais famosos que defenderam o totalitarismo à esquerda são corajosas, fazendo com que seus cursos sejam requisitados até mesmo entre aqueles que não concordam com ele.

Para termos uma ideia real, em 1980, ficou famosa uma entrevista concedida a dois estudantes confessamente esquerdistas, Jean-Louis Missika e Dominique Wolton. Nela percebe-se uma extrema cordialidade e destreza nas argumentações do catedrático, bem como nas inquirições interessadas dos estudantes. A entrevista foi lançada no Brasil, pela editora Nova Fronteira, em 1982, sob o título 'O Espectador Engajado'. Lendo-a percebemos a partir das referências feitas que de fato temos um acadêmico liberal com raízes profundamente fincadas nos clássicos pensadores, principalmente em Adam Smith e Alexis de Tocqueville.

Em 1963, já estabelecido como um dos grandes intelectuais franceses do pós-Segunda Guerra, ele é eleito para a Academia de Ciências Morais e Políticas, chancelando oficialmente sua influência e magnanimidade acadêmica naquele país e na Europa. Naquela altura, suas obras já eram quase que obrigatórias para os liberais franceses e para aqueles que se interessavam por uma visão política não tendente às propagandas do Kremilin.

Fato é que o pós-guerra de Aron foi incrivelmente produtivo, pois, além de suas funções acadêmicas, ele encarnou uma produção escrita realmente impressionante. De 1948 a 1980, ele escreveu centenas de artigos e ensaios, muitos deles traduzidos para incontáveis idiomas ao redor do mundo, além de mais de 40 livros, muitos deles publicados postumamente.

Por dever e necessidade, porém, devemos destacar quatro obras que são seminais em seu pensamento e na restruturação do pensamento francês moderno, o primeiro é 'Les Guerres en chaîne' (O Século da Guerra Total), de 1951, que tratava dos princípios sociológicos e filosóficos que levaram à aceitação, quase que passiva, das duas guerras mundiais pelos intelectuais e representantes da Europa.

O já referido 'O Ópio dos Intelectuais' tentava entender os mecanismos internos das ideias marxistas, bem como as mirabolantes retóricas hipócritas dos intelectuais ocidentais que apoiavam o comunismo soviético ao mesmo tempo em que condenavam os extremos fascistas e nazistas.

'Paz e guerra entre as nações' reformulou as posturas geopolíticas da França e os estudos das Relações Internacionais em Sorbonne. Talvez essa tenha sido uma das obras que trouxeram uma racionalidade pragmática ao debate da política externa francesa da segunda metade do século XX, evitando quaisquer tipos de rancor político francês – tal como o que surgira na Alemanha pós-Primeira Guerra.

E, por fim, 'As Etapas do Pensamento Sociológico', que trouxe a sociologia para perto do liberalismo político, as críticas daquela ciência do esquerdismo francês, além de analisar, com rara argúcia, os pais da sociologia do século XIX e XX.

O legado

Sem medo de exageros, podemos afirmar que Raymond Aron foi o maior liberal francês da segunda metade do século XX, ainda que negligenciado na década de 1980 em diante, difamado pela classe catedrática esquerdista que assumiria os postos que iam naturalmente vagando com o tempo. Seus livros comportam uma imensidade de análises profundamente coerentes, desconcertantes e inspiradoras, fazendo com que suas ideias e escritos, ainda hoje, sejam um dos mais procurados quando filósofos e sociólogos liberais buscam escritos sérios e desidelogizados.

A França, após a libertação, correu infantilmente para os braços do socialismo, pensando que o remédio contra o totalitarismo fascista e nazista era o totalitarismo oposto, e, ainda que muitos intelectuais pregassem a moderação, fato é que a França se tornou o grande modelo de um comunismo universitário brando, fazendo escola, inclusive, no Brasil, onde seus tentáculos de influência, principalmente na USP, se fizeram visíveis. Hoje é quase impossível não encontrar uma prévia tendência socialista nos estudos de sociologia seja aqui no Brasil ou na França.

Contra tudo e contra todos, sustentando os raros acadêmicos liberais franceses da segunda metade do século XX, Aron fez um legado de estudos profundos e ainda hoje obrigatórios. Mas foi mais longe, é fato que ele democratizou o debate nos jornais e revistas de seu país, escrevendo ensaios profundamente disruptores. Sartre, por exemplo, passou maus bocados com as críticas pragmáticas e corajosas de Aron.

O legado do francês é uma mistura de ousadia acadêmica, isenção ideológica e profundidade analítica. Um liberal de essência, e não de aparências e ativismos. Por fim, não é possível passar por Raymond Aron sem, ao menos, considerar a possibilidade de seu ponto de vista ser o correto, foi o que meu professor disse naquele dia no campus da universidade: não precisamos concordar com Aron, mas definitivamente não podemos ignorá-lo.

Fonte: Por Pedro Henrique Alves, especial para a Gazeta do Povo

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