Artigo - Carta ao povo brasileiro em defesa da real democracia – a do povo


Imagem ilustrativa.| Foto: Antonio More/Gazeta do Povo

Porto Velho, RO - Quando os cidadãos atenienses, durante o período de Péricles, no século V antes de Cristo, deram amplo conhecimento ao conceito de “democracia”, o entendimento era de uma concepção única de relação entre governados e governantes.

Tratava-se de uma contraposição ao regime da monarquia, onde o governo (rei) regia tudo e todos; e também à oligarquia, onde poucos se sobrepunham a muitos. Dêmos significa povo ou muitos, enquanto kracia quer dizer governo ou autoridade. Assim, como observam Platão e Aristóteles, a democracia seria uma forma de governo exercido por muitos.

No Art. 1º, Parágrafo único da nossa constituição, esse conceito foi transcrito: “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”. Em 1988, quando estabelecida a questão de que viveríamos em uma República Democrática, formou-se o acordo de que o povo seria o governante deste país. O povo como o real e verdadeiro regente das políticas, leis e assuntos públicos que irão determinar os caminhos a serem seguidos.

Vemos nos dias atuais, alegações de amadurecimento desse conceito, onde “entidades”, “instituições”, “artistas” e alguns autoproclamados “intelectuais”, se sentem capacitados a determinar quais são os assuntos que podem ser discutidos, quais ciências devem ser seguidas, quais religiões são mais ou menos dignas de respeito.

O verdadeiro povo quer seu direito de ter dúvidas, questionamentos, posições, crendices, superstições e até ignorância sobre esse ou aquele assunto. Esse povo quer decidir sobre si.

Estes “ungidos”, do alto de sua arrogância, têm plena certeza de estarem representando um povo, que podem até lhe prestar respeito e admiração por suas músicas, poemas, teatralidade ou conhecimento, mas nunca os elegeu a nada. O povo real, aquele que paga seus impostos, pega a condução lotada, que não tem direito a duas ou três férias anuais, aquele povo que não tem as “prerrogativas” de ter refeições regadas a vinhos caros e lagosta, que não anda com seguranças armados, que não tem carros à disposição, que não tem condições de ir para torneios internacionais de tênis gritar suas opiniões políticas, esse povo é a dêmos da democracia. Esse povo é que determina quais são os assuntos e as verdadeiras “prerrogativas” da “kracia”.

O verdadeiro povo quer seu direito de ter dúvidas, questionamentos, posições, crendices, superstições e até ignorância sobre esse ou aquele assunto. Esse povo quer decidir sobre si, quer compra uma, duas ou dez televisões, quer ter casa feia e carro bonito, quer ter casa bonita e uma bicicleta, quer não ter casa e não ter carro, ou seja, quer o que quiser. O que o povo não quer é que autoproclamados detentores da verdade absoluta, se escondendo através de “instituições” compostas por pessoas que não têm nem seus nomes e funções conhecidas, dizendo que falam pelo povo.

Esses ungidos “institucionais” que alegam defender a democracia parecem ter se equivocado do seu conceito original, afinal, poucos que se sobrepõe a muitos, não é democracia, mas oligarquia. O povo não tem como se pronunciar em rede nacional, em mídias e consórcios de comunicação. Ao povo só restam duas opções, a urna, para a eleição daqueles a quem confia sua representatividade; e a rua, onde sua expressão pode tomar forma e ser difundida. Se a primeira opção causar desconfiança ou insegurança, ou os eleitos não demonstrarem aptidão ou respeito aos eleitores, o povo irá para as ruas manifestar suas vontades e aquele que se opuser a tal ato, esse sim, estará indo contra a verdadeira democracia.

E como eu sei como o povo se sente? Não sou um intelectual, não tenho milhões de fãs nas redes sociais, não compus músicas que viraram hinos de uma geração, nunca fui de bermudas ao STF, nem comi uma lagosta. Acordo cedo todos os dias e vou para o meu trabalho. Tento dar o melhor que consigo para minha família. Me abalo com o sofrimento do meu próximo. Tenho dívidas. Faço carnê para comprar mais uma TV. Sou mais um João, um José ou uma Maria. Sou o povo.

Fonte: Por Tiago Marian é pequeno empresário e tem graduação em Administração de Empresas pela Universidade Tuiuti do Paraná.

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