Qual atitude concreta do governo ameaçou a democracia?



Porto Velho, RO - Vemos cartinha de banqueiros e juristas em "defesa da democracia". Vemos intelectuais alarmistas falando em golpe. Vemos ministros do STF agindo como militantes partidários e batendo boca com o presidente eleito. Só não vemos uma coisa: alguém disposto ou capaz de apontar uma única ameaça concreta contra a democracia do atual governo.

Já entrevistei dois importantes signatários da tal cartinha, fiz essa pergunta, e nada. Ambos saíram pela tangente. É sempre a denúncia da "retórica" do presidente, dos "ataques" que ele faz ao nosso sistema eleitoral, e a previsão de um potencial futuro golpe imaginário. E com base nessa expectativa, o sistema se mostra unido no intento de forçar uma narrativa.

Se os democratas americanos não conseguem esquecer a lamentável cena no Capitólio dia 6 de janeiro de 2021 - e lá se vão 18 meses! - pois isso ajuda a desviar o foco da péssima gestão de Joe Biden, a esquerda brasileira tampouco pode deixar o episódio se apagar, pois precisa dele como um lembrete do que pode acontecer no Brasil. E, com base nisso, justifica todo tipo de ativismo indevido contra Bolsonaro.

Helio Beltrão, em sua coluna de hoje na Folha de SP, chama a carta de "eleitoreira" e explica os motivos: "Parece haver entre os signatários a crença de que a lisura é de 100%, sem possibilidade alguma de ataque malicioso, fraude ou erro. Quem não concorda com a lisura de 100%, sem riscos, das eleições vindouras é tomado por golpista, inimigo da democracia". Ignora-se que Bolsonaro sempre criticou as urnas eletrônicas de primeira geração. Aliás, os que o chamam de golpista hoje também faziam o mesmo.

Beltrão lembra, ainda, que há outras formas de realmente ameaçar a democracia: "A ameaça vem também, por exemplo, de quem propõe controle externo de juízes e do Judiciário para interesses partidários ou mudança de regras no STF, como o aumento do número de ministros. Vem de quem propõe estabelecer conselhos e comitês para gerir a sociedade, suplantando as instituições constitucionais. Vem de quem propõe controle da mídia ou persegue jornalistas. Vem de quem aplica a censura prévia e prende cidadãos e até representantes do povo com base em discursos considerados inaceitáveis".

A lista continua, mostrando quem realmente ameaça a nossa democracia: "Vem de quem propõe uma sociedade baseada em igualdade de resultados, suplantando a livre associação. Vem de quem tenha histórico de comprar os votos dos representantes do povo e de descumprir leis fiscais para benefício eleitoreiro. Vem de quem utiliza dinheiro público para financiar governos de países alinhados ideologicamente, em prol de uma supra-aliança de proteção mútua para perpetuação no poder. Vem de quem apoia Maduro e Castros, considerados 'democráticos', e que atribui a culpa de a Venezuela ter se tornado o país mais pobre das Américas à oposição. Vem de quem aplica a corrupção sistêmica como programa de governo".

Onde estavam os signatários da tal cartinha quando o Foro de SP dominava o Brasil, apontando na direção da Venezuela? Onde estavam eles quando o mensalão usurpava nossa democracia representativa? Beltrão conclui: "De fato, a memória do brasileiro é curta. A percepção de perigo democrático no governo atual ofusca o caráter comprovadamente arbitrário da turma que quer voltar".

Não por acaso, o ex-presidente Lula pode assinar, nos próximos dias, a carta "em defesa da democracia" divulgada na semana passada pela Faculdade de Direito da USP. O tópico tem sido discutido pelo comando da campanha do ex-presidente, que até agora não quis aderir ao manifesto para não partidarizar (de forma escancarada) o debate, segundo tem dito a aliados. Mas todos já sabem que a cartinha tem lado, e daí o ridículo de pedirem para o próprio Bolsonaro assinar o troço.

Ora, outra carta, com mais signatários em menos tempo, tem circulado nas redes sociais, mas vem sendo ignorada pela imprensa. Talvez faltem "pessoas importantes" entre as assinaturas. É a visão de "democracia" que parte da nossa elite tem: uma democracia de gabinete, dos "especialistas", dos "renomados", dos "ungidos". O povo não parece ter muito espaço nessa equação.

Mas o povo pode dar a resposta nas urnas - apesar das desconfianças legítimas. É ali o local de demonstrar sua insatisfação com essa arrogância autoritária de quem acusa o outro de golpista enquanto prepara o verdadeiro golpe contra nossa democracia.

Fonte: Por Rodrigo Constantino

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