
Felipe Vieira
Todo mundo gostaria de trabalhar menos e ganhar mais. Eu gostaria. Você, leitor, certamente também. Não há nada de errado nesse desejo. O problema começa quando esse anseio legítimo é transformado em política pública com fins eleitorais, vendido como avanço social inevitável e completamente desconectado da realidade econômica do país. A conta não desaparece. Ela apenas muda de lugar — e costuma parar no bolso de quem trabalha, consome e paga impostos.
A proposta de acabar com a jornada 6×1 não surge do nada. É uma bandeira histórica da esquerda brasileira, do Partido dos Trabalhadores, de sindicatos e do próprio presidente Lula. Volta à mesa em ano eleitoral, embalada por um discurso moralmente sedutor: quem seria contra trabalhar menos? Essa é a armadilha. Política pública não pode ser decidida no grito nem na emoção do slogan. Precisa ser decidida pela frieza dos números.
Trata-se do clássico canto da sereia trabalhista. A promessa é simples, bonita e falsa: menos horas, mais empregos, mais renda, mais bem-estar. Defensores da medida falam em ganhos automáticos de eficiência, qualidade de vida e crescimento econômico. O problema é que eficiência não brota por decreto. Onde estão os estudos sérios que comprovem aumento real e sustentável da produtividade no Brasil com essa mudança?
Aqui é preciso ser intelectualmente honesto. O Brasil tem baixa produtividade — não porque o trabalhador seja preguiçoso, como alguns gostam de insinuar, mas porque o país falha sistematicamente em oferecer treinamento, qualificação contínua, estímulos corretos, organização produtiva e investimento em tecnologia. Falta ambiente. Falta política pública focada em eficiência. Falta o básico. Sem isso, não existe milagre.
A comparação com a Europa costuma ser feita de forma superficial e, muitas vezes, desonesta por omissão. Nos países que avançaram na redução de jornada, isso ocorreu depois de ganhos consistentes de produtividade, reorganização profunda dos processos produtivos, negociação setorial intensa e longos projetos-piloto. Portugal é um bom exemplo — e particularmente próximo de nós. Pátria-mãe do Brasil, país que recebeu milhares de brasileiros nos últimos anos, Portugal não reduziu jornada por decreto geral. Lá, a eficiência veio primeiro; o debate sobre menos horas veio depois. Quem quiser entender o processo real pode, inclusive, conversar com brasileiros que vivem e trabalham no país: a redução de jornada foi discutida com base em produtividade, acordos voluntários e realidade econômica, não em slogans eleitorais. Copiar o fim do processo, ignorando todo o caminho que levou até ele, não é política pública. É populismo.
Para sair de uma jornada de 44 horas semanais para 36 horas sem reduzir salários, o Brasil precisaria elevar a eficiência do trabalho em cerca de 22%. Isso não é opinião ideológica, é matemática básica. E qualquer pessoa intelectualmente honesta sabe que o país não está nem perto disso — nem estará no curto ou médio prazo.
Quando o custo da hora trabalhada sobe por imposição legal e a eficiência não acompanha, o mercado reage do único jeito possível. A conta estoura. Menos empregos formais, mais informalidade, mais terceirização, mais automação. O discurso segue bonito; a realidade cobra feio.
E aqui entra um fator estrutural que muitos fingem não ver: o mundo está reduzindo a dependência de mão de obra humana. A automação e a inteligência artificial já não são promessa futura — são realidade presente. Indústrias, serviços e grandes empresas estão adotando sistemas autônomos, IA e até robôs humanoides justamente para reduzir custos, aumentar previsibilidade e escapar de rigidezes trabalhistas. Tornar o trabalho ainda mais caro por imposição legal, num cenário de transformação tecnológica acelerada, é acelerar conscientemente a substituição de pessoas por máquinas. Não por crueldade empresarial, mas por sobrevivência econômica.
O impacto dessa escolha não fica restrito às empresas. Ele atinge diretamente a classe média. Quem contrata um trabalhador doméstico, um prestador fixo ou um serviço contínuo sabe: se a jornada cai por imposição legal, a necessidade do serviço não desaparece. Ou se contrata outra pessoa, com nova carteira assinada, novos encargos e mais impostos, ou se reduz o serviço. Em ambos os casos, o custo sobe — e a renda de quem paga permanece a mesma.
Esse custo não evapora. Ele se espalha pela economia: comércio, indústria, serviços, agro. Tudo encarece. E quando tudo encarece, o nome é conhecido: inflação. A mesma inflação que corrói salários, penaliza os mais pobres e obriga o país a conviver com juros altos. Depois, os mesmos políticos reclamam da Selic elevada, fingindo esquecer que o principal combustível dessa taxa é o descontrole fiscal promovido pelo próprio governo.
Nada disso significa defender a escala 6×1 como ideal. Ela é dura e precisa, sim, ser repensada em vários setores. Mas repensada com negociação, com ganho de produtividade, com realidade — não com slogans. Empresários sérios não vivem de discurso. Vivem de pagar folha, manter empregos e sobreviver num país onde a carga tributária beira 40% da renda anual e o retorno em serviços públicos é pífio.
No fim, a conta é simples e cruel: sem produtividade, o Brasil não trabalhará menos. O trabalhador não ganhará mais. Trabalhará pior, pagará mais caro por tudo e perderá proteção.
Não há milagre.
Essa é a conta.
E ela sempre chega.
* Felipe Vieira é jornalista. Artigo publicado originalmente no site www.felipevieira.com.br.


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