Casais que estão tentando engravidar devem estar atentos também à saúde mental


O processo de tentativas de engravidar pode afetar a saúde mental tanto da mulher quanto do homem.| Foto: Bigstock

Porto Velho, RO - "Por que vocês não adotam?", "É só relaxar que o bebê vem", "Você já tentou isso ou aquilo?", "Talvez não é o que Deus quer pra vocês", "Mas qual dos dois tem problema?”, "Você é muito nova, tem tempo", "Já está com mais de 30, acho que não vai conseguir mais", "Será que você quer mesmo ter filhos?", "Hoje em dia tá tão difícil que é até bom que você não consegue ter filho".

Essas são algumas de muitas perguntas desnecessárias e ofensivas que são direcionadas aos casais que estão tentando engravidar. Enquanto permanecem na espera, frases como estas podem ser capazes de invalidar a experiência e o sentimento, explica Malu Leal, psicóloga obstétrica e doula.

O processo de tentativas, segundo a psicóloga obstétrica, pode afetar a saúde mental da tentante e seu marido. “Todas as dimensões da vida do casal são atravessadas por essa experiência: a vida afetiva, sexual, a autoestima, o desempenho no trabalho, as projeções para o futuro”, diz ela.

A expectativa é tanta que podem surgir níveis altos de estresse e ansiedade, podendo, até mesmo, configurar um transtorno mental. Portanto, é imprescindível uma atenção especial a essa área tanto da mulher quanto do homem.

Como a saúde mental se relaciona à tentativa de gravidez?

Segundo Malu, a saúde mental pode interferir nas tentativas de engravidar, afetando a fertilidade tanto da mulher como do homem. “Nas tentativas de conceber, fatores psicossomáticos podem acabar causando "bloqueios", dificultando a concepção. No homem, o estresse pode diminuir a qualidade dos espermatozoides, o que também demonstra a influência de questões psicológicas na fertilidade”, explica a profissional.

Além da questão química, as tentativas de gravidez podem mobilizar muitas emoções, positivas e negativas, acredita a psicóloga e mestre em psicologia pela Universidade Federal do Paraná, Luiza Sionek.

Nesse sentido, Luiza destaca a importância de o casal ficar atento à intensidade de emoções, como as oscilações de humor, expectativas geradas, ansiedade para que dê certo e medo de não conseguir engravidar e o quanto elas se tornam centrais na vida dos cônjuges.

Quando os pensamentos e as emoções que envolvem as tentativas ficam muito intensos e isso traz algum tipo de sofrimento ou prejuízo na vida da pessoa ou do casal, é importante que se busque ajuda, indica a psicóloga.

Equilíbrio emocional durante a espera

Os tratamentos, consultas e exames podem se tornar uma verdadeira peregrinação, custosa financeira e emocionalmente. A mulher pode sentir que o marido não se importa tanto quanto ela e vice-versa. O homem pode se sentir impotente e não saber como dar suporte à parceira ou pedir ajuda para suas necessidades também. Nesse momento, segundo Luiza, o equilíbrio emocional é fundamental durante o percurso que o casal percorre de espera da gestação.

A busca do equilíbrio emocional é dinâmica. Malu explica que, assim como um artista no monociclo nunca fica parado, equilibrando-se para a frente e para trás, o equilíbrio emocional também não é estático, inexistindo uma constância integral nas emoções.

É esperado e saudável que aconteçam oscilações de humor proporcionais e de acordo com as circunstâncias, conta a psicóloga obstétrica. Contudo, é importante que o casal fique atento e busque ajuda para não se isolar durante o tratamento.

Inclusive, é bastante comum o casal se sentir ferido ao ver outras pessoas com seus bebês e comecem a se isolar, frequentando menos os ambientes sociais e familiares, para evitar esses desconfortos. Nesses casos, Luiza orienta aos casais que busquem encontrar pares, ou seja, pessoas que estão passando por situação similar, podendo oferecer um grande alívio ao casal.

É importante o casal saber que a maratona costuma ser longa e por isso, saber manejar a ansiedade é crucial. Para isso, as psicólogas explicam que cada pessoa deve encontrar uma forma de lidar com sua ansiedade e manter o equilíbrio emocional, seja no fortalecimento da relação do casal, na espiritualidade, exercícios físicos, lazer, exercícios de meditação ou na terapia. “O essencial é que eles fiquem atentos para que essa ansiedade não paralise, ou seja, não os impeça de realizar suas tarefas cotidianas, de ter momentos de prazer ou os faça desistir do processo de engravidar”, destaca Luiza.

Acompanhamento psicológico


Quando os meses vão passando e a gravidez não vem, a ansiedade aumenta. O processo começa a se tornar muito doloroso e tudo o que envolve o tema pode ser um gatilho para essa dor. Tanto a mulher, quanto o homem, podem ter a sensação de que cada mês foi mais uma perda. Assim, conforme indica Luiza, torna-se imprescindível o acompanhamento psicológico para evitar o adoecimento mental.

“O acompanhamento psicológico serve tanto para prevenir, quanto para tratar sintomas e doenças. Além de proporcionar o fortalecimento psíquico e auxiliar a mulher na sua preparação para a maternidade, que mesmo quando não há questões relacionadas à dificuldade de conceber, tem seus desafios e demandas”, orienta Malu.

Luiza explica que o acompanhamento psicológico pode auxiliar o casal a lidar com as oscilações de humor, as expectativas e frustações, facilitando a compreensão do processo de espera da gestação, contribuindo para se ter clareza sobre o que está e o que não está no controle do casal.

Rede de apoio

Muitas vezes, a tentante se isola e deixa de compartilhar o que está vivenciando porque cada pessoa vem com algum conselho ou a solução mágica para engravidar.

É importante que os amigos e familiares do casal lembrem-se que eles já devem ter percorrido uma jornada, senão até uma peregrinação de médicos e exames, e provavelmente têm muito mais conhecimento sobre si do que um familiar, amigo ou desconhecido.

Portanto, de maneira geral, a melhor forma de apoiar a tentante e seu companheiro é estar disponível para escutá-los, através de uma forma acolhedora que busque compreender sem julgamentos o que o casal está vivenciando, e evitar perguntas invasivas ou comentários clichês, orienta Malu.

Além disso, Luiza destaca a importância de não sobrecarregar o casal que busca a gestação com medos e inseguranças. “O casal já tem uma boa dose desses medos e em geral o que ela necessita é de acolhimento e amparo. Saber acolher e dar suporte são habilidades complexas que, quando presentes, ajudam muito na saúde mental do casal”, conclui ela.

Fonte: Por Sissy Zambão, especial para o Sempre Família

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