O que é o míssil hipersônico Khinzal e por que os EUA ainda não têm um


Mísseis hipersônicos em exibição na Coreia do Sul, em 2021| Foto: EFE

Porto Velho, RO - Corria o ano de 2018 quando o presidente da Rússia, Vladimir Putin, anunciou que o país havia desenvolvido e testado um novo arsenal capaz de transportar ogivas nucleares - e que não seria interceptado pelos sistemas antimísseises tradicionais.

"Quero dizer a todos aqueles que alimentaram a corrida armamentista nos últimos 15 anos, procuraram tirar vantagens unilaterais sobre a Rússia e introduziram sanções ilegais destinadas a conter o desenvolvimento do nosso país: tudo o que vocês queriam impedir já aconteceu", alertou o líder russo em rede nacional.

Logo em sua primeira apresentação oficial dos mísseis hipersônicos, o presidente afirmou que arma inutilizaria as defesas da OTAN e dos Estados Unidos. "Ninguém no mundo tem algo assim", avisou Putin, ainda em março daquele ano. E ele estava certo.

Quatro anos após o anúncio, precisamente na última sexta-feira (19), a Rússia afirmou ter utilizado seus mísseis hipersônicos Kinzhal (palavra que significa "punhal", em russo) para destruir um depósito de armas no oeste da Ucrânia. 

A própria agência de notícias estatal russa TASS recordou que estes armamentos foram implantados em 2017 de forma experimental no sul do país. No final de 2021, a China realizou seus próprios testes e atestou a funcionalidade destes projéteis. A guerra na Ucrânia teria sido, contudo, a primeira vez que os mísseis foram usados em campo.

Como funcionam


Embora sejam considerados armas de alta tecnologia, o princípio de funcionamento dos mísseis hipersônicos é bastante simples: tratam-se de mísseis que viajam mais rápido do que a velocidade do som (entre quatro e 12 vezes) e podem ter a rota alterada ao longo do percurso. Isso os torna praticamente impossíveis de serem rastreados e interceptados: um míssil balístico comum, normalmente, faz uma rota no formato de uma parábola pelo espaço. 

No caso dos hipersônicos, a jornada é feita dentro da atmosfera e é irregular. Outra diferença é que os mísseis comuns costumam ser lançados a partir do solo; enquanto os hipersônicos saem de aviões de guerra.

Essas peculiaridades conferem aos detentores destas armas uma considerável vantagem tática. Analistas de guerra comparam o momento com quando os mísseis nucleares começaram a substituir os bombardeios, reduzindo significativamente o tempo de resposta do país atacado. 

Em resumo: com mísseis hipersônicos, uma nação pode atacar a outra em questão de minutos, "como uma bola de fogo", conforme descreveu o próprio Putin em 2018. A animação exibida na ocasião mostrava um míssil Kinzhal destruindo uma frota de navios da Marinha.

Na ocasião, líderes de segurança americanos não aparentaram muita preocupação com o anúncio. “Reconhecemos que estamos em uma competição com países como China e Rússia”, disse Steven H. Walker, diretor da Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa, na manhã do discurso do presidente russo.

“Não vou confirmar ou negar as declarações do presidente Putin”, disse ele, “mas sei que foi amplamente divulgado que a China e a Rússia estão desenvolvendo equipamentos hipersônicos”. Walker afirmou que a Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa (DARPA) também vem desenvolvendo essas capacidades há décadas.

O problema é que, até então, a maioria dos testes realizados pelos Estados Unidos havia falhado. Em outubro de 2017, o DARPA solicitou ao governo Trump um financiamento adicional para construção de mísseis supersônicos, ao que o ex-presidente republicano cedeu a quantia de US$ 85,8 milhões. Ainda assim, o desenvolvimento desta tecnologia não entrou no radar de prioridades.

Atraso americano

Em entrevista ao portal CTVNews, do Canadá, professor de engenharia aeroespacial e diretor do Centro de Iniciativas de Segurança Nacional da Universidade do Colorado, Iain Boyd, afirmou que os Estados Unidos trabalham lentamente nesse sentido e estão "definitivamente atrasados". “Essas atividades estão bem no início, são muito, muito caras e levarão muitos anos para serem implementadas”, explicou.

Para o codiretor do programa de política nuclear no Carnegie Endowment for International Peace, James Acton, isso não significa que os Estados Unidos não possuam tecnologia supersônica: segundo ele, até mesmo corporações operadas por americanos como Elon Musk e Jeff Bezos possuem protótipos de equipamentos aeroespaciais que alcançam a velocidade do som.

“É muito comum afirmar que há uma corrida armamentista na tecnologia hipersônica e que os Estados Unidos estão perdendo”, explicou Acton. “Mas, de muitas maneiras, os Estados Unidos estão fazendo uma corrida diferente da Rússia e da China”.

De fato, alguns especialistas entendem que armas nucleares novas e mais avançadas, hipersônicas ou não, oferecem pouco valor estratégico. Na prática, como qualquer conflito nuclear resultaria em uma guerra de grandes proporções, a menos que a nova arma possa neutralizar a equivalente, um novo equipamento nuclear é tão eficiente quanto um antigo. "O valor estratégico só pode vir de uma arma que força uma mudança na estratégia do seu oponente", avalia uma reportagem do final do final do ano passado.

Ainda assim, a demora dos Estados Unidos não pode ser ignorada. “A burocracia que criamos em nossos sistemas de defesa e aquisição de equipamentos, não apenas no espaço, mas em outras áreas, nos atrasou muito”, disse recentemente ao Politico o general David Thompson, vice-chefe de operações espaciais.

“O fato de não precisarmos nos mexer rapidamente por algumas décadas – no sentido de ter um concorrente estratégico com esses recursos – não nos motivou nem exigiu que nos atualizássemos rapidamente”, completou. 

No ano passado, por ocasião dos testes na China, o general Mark Milley, chefe do Estado Maior, admitiu que o lançamento de mísseis hipersônicos pelo país asiático estava “muito perto” do “momento Sputnik”: uma referência ao lançamento do primeiro satélite pela União Soviética em 1957, deixando os Estados Unidos para trás. 

O anúncio da Rússia levantou suspeitas de que, 65 anos depois, o “momento” se repita.

Fonte: Por Maria Clara Vieira

Postar um comentário

0 Comentários

Close Menu