Cultura do cancelamento - A história do genial professor negro perseguido pela esquerda em Harvard


Harvard: uma das maiores universidades do mundo “cancelou” um de seus melhores professores negros. Por quê?| Foto: EFE

Porto Velho, RO
- Roland Fryer Jr. nasceu em um bairro pobre de Daytona Beach, no estado americano da Flórida. Em poucos dias, foi abandonado pela mãe, que só viria a conhecer depois dos 20 anos. Criado no Texas pelo pai, um alcóolatra viciado em apostas, chegou a cometer pequenos roubos e a perder amigos para o tráfico de drogas. Por seu bom desempenho no basquete, ganhou uma bolsa na Universidade do Texas em Arlington, onde se apaixonou por economia. Sua ascensão foi meteórica: aos 30 anos, tornou-se o segundo professor mais jovem a ser efetivado na Universidade de Harvard – o primeiro negro -, com uma impressionante lista de prêmios, homenagens e entrevistas em programas de TV no currículo.

(Cabe lembrar que, nas universidades americanas e britânicas, o título de professor é um título de honra, geralmente concedido a quem está no auge ou no fim da carreira. A efetivação dá uma grande estabilidade potencialmente vitalícia aos acadêmicos)

Até que, em meados de 2018, Fryer foi subitamente acusado de assédio sexual – e sumariamente cancelado por Harvard. Quatro anos depois de seu afastamento de uma das mais prestigiadas universidades do mundo, um mini-documentário questiona o processo ao qual o economista foi submetido, dando indícios de que a punição desproporcional foi motivada não por um caso flagrante de abuso (do qual há, na verdade, poucas provas contundentes), mas por perseguição ideológica. Afinal, em 2016, Fryer cometeu o “disparate” de publicar uma pesquisa indicando que, embora minorias étnicas (negros e latinos) fossem mais propensas a experimentar o uso da força policial do que os brancos nos Estados Unidos, a elas não corriam mais risco de serem baleadas pela polícia do que os brancos.

Movido pelo desejo genuíno de melhorar as condições de vida de crianças negras em bairros periféricos, Fryer começou cedo a incomodar o status -quo. Em 2003, o economista investigou a teoria de que alunos negros iam mal na escola porque tirar notas altas seria visto como "atitude de branco", fazendo com que sofressem bullying por parte da comunidade negra. Com base em dados de pesquisas referentes a dezenas de milhares de alunos de escolas públicas, Fryer descobriu que, enquanto os alunos brancos e asiáticos tendiam a ganhar amigos constantemente à medida que se destacavam na escola, os alunos negros muitas vezes começavam a perder amigos, lançando inquietantes questionamentos sobre as exigências colocadas sobre essas crianças, bem como seu imaginário.

Depois, investigando o sucesso do Harlem Children's Zone - famoso projeto educativo em Nova York no qual estudantes pobres tendem a superar os de escolas de elite -, Fryer descobriu que o ingrediente principal do fenômeno era a cultura de altas expectativas, um achado que colidia com a visão politicamente correta de que, se os testes de desempenho indicam problemas educacionais na população marginalizada, a solução é eliminá-los. "Nós não devíamos esperar tanto de vocês. Agora, vamos ensinar o Teorema de Pitágoras", dizia o economista, para ilustrar a falta de sentido destas propostas. Entusiasta do senso comum, Fryer contava em palestras que telefonou para sua avó materna para contar as descobertas de sua pesquisa. “Estão te pagando para ‘descobrir’ isso?”, ela dizia.

Nos anos seguintes, viriam a convocação para Harvard, um convite para chefiar um programa de estudos em Nova York, a nomeação para a MacArthur Fellow - bolsa concedida a pesquisadores considerados, literalmente, geniais - e a medalha John Bates Clark Medal, dada a economistas de destaque com menos de 40 anos. Cinco anos depois desta premiação, viria o artigo sobre abordagens policiais que o colocaria em rota de colisão com a elite de Harvard – notoriamente, a pesquisadora Claudine Gay, chefe da cadeira de estudos afro-americanos da universidade, e Larry D. Bobo, renomado professor de ciências sociais, com quem Fryer debateu publicamente. Ambos insistiam que os problemas enfrentados pela população negra se resumiam ao que hoje, no Brasil, se entende por “racismo estrutural”.

“É mais provável que ele (Fryer) lhes diga algo do tipo: você não sabe porcaria nenhuma do que as pessoas negras precisam. E é mais provável que ele diga isso não apenas para um branco, mas para um desses negros domesticados de gravata borboleta que nunca viram um conjunto habitacional por dentro. Ele vai te dizer: você não sabe o que é uma cracolândia. Você nunca esteve nem perto de um lugar onde se ouvem tiros às duas horas da manhã e ninguém sabe de onde vieram. Notei que eles não gostam desse tipo de gente em Harvard”, afirma o economista Glenn Loury, professor-titular da Universidade de Brown e um dos mentores de Fryer.

Acusação, investigação e julgamento

Em março de 2018, Roland Fryer foi oficialmente afastado de seu cargo em Harvard após uma acusação de assédio sexual movido por uma ex-secretária demitida de sua equipe. Em artigo para a revista Quillette, o roteirista Rob Montz, um dos autores do documentário que teve acesso aos relatórios do processo, expõe sem rodeios que a conduta do economista não foi impecável:

"O relatório final pinta o retrato de um homem que podia ser insensível diante das assimetrias de poder no local de trabalho e que cruzava fronteiras com subordinados. Ele fez algumas piadas indiscutivelmente inapropriadas no escritório, como dizer que um administrador universitário idoso 'não fazia sexo desde que os negros eram escravos'. Também brincou que aprendeu suas habilidades de negociação enquanto 'tentava transar no ensino médio' – conversa padrão de vestiário de seus dias como uma estrela adolescente de futebol e basquete".

O problema, contudo, começa na forma como o processo correu: nos Estados Unidos, uma investigação do tipo Title IX, como a que foi feita com Fryer, implica padrões mais baixos para a consideração de provas do que em julgamentos normais e os réus frequentemente não têm permissão para confrontar o acusador ou apelar o veredito. Segundo Montz, mesmo juristas menos conservadores consideram desproporcional.

Uma nova sucessão de abusos marcou o desfecho do caso: após extensa investigação, o comitê responsável pelo caso em Harvard concluiu que não havia indícios de que Fryer houvesse tocado em alguém ou sequer feito propostas de cunho sexual. Foi recomendado que, como punição, o economista passasse por "treinamentos" de conduta.

À revelia da recomendação, um grupo de administradores determinou a suspensão de Fryer por dois anos, sem direito a salário e decretou o fechamento de seu laboratório de pesquisa que recebera investimentos milionários. Entre os membros deste comitê, estavam a professora Claudine Gay e o professor Larry Bobo. Claudine, inclusive, chegou a pedir que o reitor de Harvard revogasse o título de Fryer, o que teria sido uma decisão inédita na história da universidade. O pedido foi recusado.

Nada disso impediu que, em dezembro de 2018, Fryer apresentasse sua renúncia. Em carta ao The New York Times, o professor "cancelado" expressou arrependimento por ter "permitido, incentivado e participado" de uma atmosfera no laboratório de pesquisa que incluía "piadas obscenas" e comentários sobre vidas pessoais, mas negou bullying, retaliação contra funcionários ou investidas sexuais.

Em 2019, Claudine Gay se tornaria reitora da Faculdade de Artes e Ciências da Universidade de Harvard. Em junho do ano passado, Larry D. Bobo, hoje reitor da Faculdade de Economia na instituição, anunciou que Fryer obteve permissão para voltar a lecionar em Harvard “sob certas condições”: entre elas, a supervisão pessoal de Claudine. Em um editorial que beira o inacreditável, o jornal universitário The Harvard Crimson associa o retorno de Fryer à “cultura do assédio”.

Enquanto isso, o documentário “Harvard cancelou seu melhor professor negro. Por quê?” foi assistido mais de 100 mil vezes e passou longe da grande mídia, sendo repercutido apenas pelo New York Post e veículos independentes como a newsletter da jornalista Bari Weiss, egressa do The New York Times. Em suas poucas aparições nos últimos anos – entre elas, entrevistas ao mentor Glenn Loury e ao American Enterprise Institute (EAI) - Roland Fryer nunca renegou suas descobertas acerca do que está realmente por trás da disparidade racial nos Estados Unidos, o que reforça a certeza de que velhos desafios o aguardam em Harvard.

Fonte: Por Maria Clara Vieira

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