TRANSPORTE O lendário F-600 é caminhão para a história de Mato Grosso

Revista do Caminhonheiro
O tráfego era muito difícil entre Cuiabá e o vizinho Estado de Rondônia

Porto Velho, RO - Agonizante, o trem permanecia preso aos trilhos em sua malha com bitolas que não permitiam seu vaivém Norte-Sul e sem condições de interiorizar o país que, sob a liderança de Juscelino Kubitschek, construía sua capital, Brasília, no ponto sonhado por São João Bosco, em agosto de 1883.

Além da cidade, o Brasil precisava de caminhão para ligar o Acre e Belém ao Centro-Oeste, enquanto edificava os alicerces do lugar onde o santo italiano, fundador da Congregação Salesiana, profetizou que seria a terra prometida, de onde jorraria leite e mel e seria uma riqueza inconcebível.

Assim, nos anos 1950, JK lançou as bases da indústria automobilística nacional e, em 26 de agosto de 1957, saiu, da linha de montagem da Ford, o caminhão F-600, que teve lugar de destaque para a ocupação do vazio demográfico fora do litoral e do triângulo São Paulo-Rio-Minas, que concentravam 85% dos 72 milhões de brasileiros.

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O F-600 foi produzido até 1984 e, no ano seguinte, a Ford lançou a linha Cargo a diesel, que tinha foco nos cavalos mecânicos, mas, antes dela, o modelo primitivo perdeu parcela do mercado para outros pesados da linha F.

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O caminhão F-600 topava tudo, enfrentava as mais difíceis estradas

Em 1961, o motor a gasolina da montadora recebeu opção: a motorização a diesel.

A Ford perdia espaço para a Mercedes-Benz.

Seu marketing criou o slogan que saía de fábrica no para-choque dianteiro de seus caminhões, com um espaço no centro, para o emplacamento: Pense forte (placa) Pense Ford.

A montadora de origem alemã retrucou inteligentemente: O que é bom já nasce diesel.

O motor Perkins não foi bem recebido, por conta dos problemas de entrada de ar que apresentava na bomba de óleo, e pela dificuldade da partida no amanhecer.

Pela manhã, se o clima estivesse ameno – não digo frio, porque isso é raridade em Mato Grosso –, o danado do Perkins não pegava na partida nem com reza braba.

A saída, invariavelmente, era encostar a traseira de um caminhão à sua, para o tranco.

O benemérito era sempre um Mercedes-Benz, e o assistido, o próprio ou impróprio Perkins.

O desempenho do motor Perkins atingiu o F-600, mas o tiro de misericórdia foi disparado do Oriente Médio, pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep).

Os árabes miraram os Estados Unidos por seu apoio a Israel na Guerra do Yom Kippur, iniciada em 6 de outubro de 1973, e acertaram a frota brasileira movida a gasolina.

O confronto terminou com a vitória israelense em 26 de outubro daquele ano, e, em março de 1974, o barril de petróleo disparou de 3 para 12 dólares.

Aos caminhões, a gasolina restaram os colecionadores e pequenos fretes urbanos.

A resposta brasileira foi imediata.

Em 14 de novembro de 1975, o presidente Ernesto Geisel criou o Programa Brasileiro do Álcool (Proálcool).


F-600 na colonização do Município de Porto dos Gaúchos

Mato Grosso perdia a parceria com o F-600, mas, em compensação, ganhava um parque sucroalcooleiro, que começou em Nova Olímpia, com Olacyr de Moraes – que ali instalou a maior usina de álcool do mundo, a Itamarati; Barra do Bugres, com João Petroni, Renê Barbour e os irmãos Agostinho e Moacir Sansão, com a Barralcool; com Serafim Adalberto Ticianel, na Usina Libra, em São José do Rio Claro; e inseriu a Usina Jaciara, da cidade do mesmo nome e pertencente ao Grupo Naum, ao sistema de produção de álcool.

Quando o F-600 rodou pela primeira vez, Mato Grosso tinha dois caminhos carroçáveis para Campo Grande (MS) e Goiânia (GO).

A chalana pelos rios Cuiabá e Paraguai era o meio de transporte mais comum; em voos esporádicos, hidroaviões marcavam presença.

A aviação regional somente entrou em cena depois de 6 de agosto de 1941, dia em que o presidente Getúlio Vargas, acompanhado pelo senador Filinto Müller, visitou a capital mato-grossense e o pouso de seu avião bimotor Lockeed inaugurou a pista de pouso local.

Vieram os primeiros caminhões pelas rodovias (nomenclaturas atuais) BR-364, via Alto Araguaia, e BR-163, via Coxim (agora MS), e as duas faziam bifurcação em Rondonópolis.

Cuiabá era um dos objetivos ambiciosos de JK, que queria a integração nacional por meio de rodovias, mas a capital mato-grossense também era referência para a ligação rodoviária de Rio Branco e Porto Velho com Brasília, que nascia no vazio do Centro-Oeste e cercada pelo nada.

Revista Caminhoneiro
O primeiro F-600 deixa a linha de montagem

O presidente, em seu Plano de Metas, traçou uma imaginária cruz na Amazônia, onde encontrariam as rodovias BR-163 e 230; a primeira, ligando Cuiabá a Santarém, e a outra é a Transamazônica – com as duas, ele queria antecipar a ocupação amazônica.

A partir de Cuiabá, via Rosário Oeste e Nobre, e acompanhando o trajeto das linhas telegráficas instaladas no início do século pelo Marechal Rondon, no Chapadão do Parecis, a BR-364 abriu passagem ao tráfego; à margem daquela rodovia surgiram Vilhena, Pimenta Bueno, Presidente Médici, Ji-Paraná, Cacoal, Ouro Preto Do Oeste, Jaru, Ariquemes, Itapuã do Oeste e Candeias do Jamari, todas em Rondônia, além de Jangada, em Mato Grosso.

Sem o engessamento dos trilhos, como acontece com o trem, o caminhão revirou o Brasil ao avesso.

Em Mato Grosso, não foi diferente, começando pelo primeiro projeto de colonização nacional, o de Porto dos Gaúchos, executado pela empresa Colonizadora Noroeste Matogrossense (Conomali), do empresário visionário Guilherme Meyer, que, em 3 de maio de 1955, fundou a vila que, mais tarde, seria o município de Porto dos Gaúchos.

O Rio Arinos foi o primeiro meio de acesso ao projeto de Meyer, mas a abertura da Estrada da Baiana (MT-338) permitiu aumentar as levas de pioneiros que se espalharam por aquele lugar e nas áreas onde José Pedro Dias, o Zé Paraná, colonizava Juara, e por Novo Horizonte do Norte, que era colonizada por José Kara José.

Meyer tinha boa frota e, nela, o F-600 marcava presença, pois seu motor V-8 de 167 cv tinha força, câmbio de quatro marchas com reduzida e alta rotação para superar os desafios dos atoleiros.

Na década de 1970, no Chapadão do Parecis, o F-600 estava presente trazendo famílias de outros estados para Mato Grosso, transportando produtos para as mercearias, fazendas e participando da construção de rodovias e pontes.

Na mesma época, em Rio Branco, Salto do Céu, Lambari D'Oeste, Jauru, Figueirópolis D'Oeste e Indiavaí, na faixa de fronteira, foi intenso o fluxo migratório de capixabas e mineiros para aquelas localidades; famílias fretavam F-600 para levá-las em busca do sonho mato-grossense, e no retorno, os motoristas compravam arroz em casca e o vendiam em seus lugares de origem.

No mesmo período, no Nortão, os colonizadores Ênio Pipino, Nilza Pipino e João Pedro Moreira de Carvalho lançavam as sementes de Sinop, Cláudia, Vera e Santa Carmem, e o F-600 ocupava lugar de destaque no processo de colonização.

Vila Rondônia era o nome de Ji-Paraná, na época em que Rondônia era território federal.


Acervo CBM


O caminhão F-600 do Corpo de Bombeiros, em Cuiabá


Era também um grande mercado para novilhas com sangue nelore, embarcadas em Rondonópolis, Poxoréu e Guiratinga, para pecuaristas naquela localidade. Vencer os desafios do trajeto não era fácil, mas o F-600 suportava bem.

No retorno, ou madeira ou látex, mas nenhum motorista voltava batendo carroceria.

A colonização do Vale do Araguaia, no trecho entre Nova Xavantina e o Pará ,além de incorporar uma vasta região produtiva a Mato Grosso, contribuiu para solucionar impasses agrários no Rio Grande do Sul.

Numa desintrusão posseiros de uma terra indígena Kaingang, foram acampados no parque de exposições agropecuárias de Esteio, na Grande Porto Alegre.

De lá, o colonizador e pastor luterano os levou para seu projeto de colonização no Araguaia.

Para tanto, Schwantes criou a Viação Aérea Canarana (Vaca), cujo principal avião era o bimotor de prefixo PP-YPU.

A Vaca era um dos braços da Cooperativa de Colonização 31 de Março (Coopercol), por ele dirigida e com sede em Barra do Garças.

Essa aeronave está sobre um pedestal, na Praça Siegfried Roewer, conhecida como Praça do Avião, em Canarana.

Os pioneiros gaúchos eram levados – em boa parte – na carroceria de F-600 para os lotes que lhe eram destinados.

Longe do olhar urbano, o F-600 era um dos responsáveis pelo leite que chegava às mamadeiras das crianças mato-grossenses.

Nas famosas linhas de leite, era ele que, todo dia, recebia os galões e os entregava nas plataformas de laticínios em Araputanga, onde o padre Ermínio Celso Duca criou a Coopnoroeste, e em Juscimeira, que é a sede da Comajul, a cooperativa fundada pelo padre João Henning.

Na versão 4x4, o F-600 foi viatura militar do 2º Batalhão de Fronteira, em Cáceres.


Multiuso, era utilizado para transportar mudanças de praças de Cáceres para os destacamentos militares em Corixa, Casalvasco, Palmarito e os demais.

O F-600 também foi empregado pelo 9º Batalhão de Engenharia de Construção (9º BEC) de Cuiabá, e pelo 8º BEC, de Santarém, na década de 1970, quando da abertura da BR-163, a Cuiabá-Santarém, que os paraenses chamam de Santarém-Cuiabá.

Em Cuiabá, a primeira grande viatura de combate a incêndio do Corpo de Bombeiros, que pertencia às fileiras da Polícia Militar, foi um Ford F-600, que, por duas décadas, esteve na ativa, atendendo inúmeras ocorrências, tanto na Capital quanto em Várzea Grande.

Pelas ruas da cidade, o F-600 era presença constante, distribuindo bebidas em bares, entregando carne nos açougues e abastecendo mercearias com secos e molhados.

Em 1961, o motor a gasolina da montadora recebeu opção: a motorização a diesel.

A Ford perdia espaço para a Mercedes-Benz. Seu marketing criou o slogan que saía de fábrica no para-choque dianteiro de seus caminhões, com um espaço no centro, para o emplacamento: Pense forte (placa) Pense Ford.

A montadora de origem alemã retrucou inteligentemente: O que é bom já nasce diesel.

O F-600 foi produzido até 1984 e, no ano seguinte, a Ford lançou a linha Cargo, que tinha foco nos cavalos mecânicos, com ela o modelo primitivo perdeu parcela do mercado para outros pesados da linha F.

Em 2019, a montadora do lendário caminhão deixou o Brasil. Levou sua tecnologia e seus empregos.

Ficou a página de contribuição do F-600 ao desenvolvimento nacional e também uma ponta de saudade dos que o dirigiram ou simplesmente o viram passando ao ronco forte de seu motor.

DE F-600 DA BOA TERRA PARA A TERRA BOA - Seca que parecia não ter fim. A terra esturricada pela inclemência do Sol não produzia e o garoto Otávio cortava palma de gado – cacto sertanejo –, para manter em pé as vaquinhas curraleiras no sítio de sua família, em São Desidério, no Oeste baiano.

Divulgação

O motorista Otávio, de Jarudore, foi um dos que facilitaram a conquista da terra, em Mato Grosso

A labuta era pesada e incessante. A família de Otávio juntou-se a outras da vizinhança fretando um pau-de-arara para tirá-los da aridez e levá-las a um canto de Mato Grosso, que sequer aparecia nos mapas: Poxoréu.

Assim, aos 11 anos, o pequeno Otávio virou retirante da seca nordestina.

Sessenta e oito baianos de todas as idades – 14 crianças – e de vários sobrenomes pegaram a estrada empoeirada e que parecia sem fim.

Sem um palmo de asfalto, o caminhão Ford cruzou a Bahia, atravessou o Norte de Minas e Goiás, entrou em Mato Grosso e a aventura que se estendeu por um mês chegou ao fim, em Poxoréu, numa tarde de setembro, há 66 anos.

O possante freou pela última vez na longa jornada pelo interior do Brasil.

De sua carroceria, desceram primeiro os homens. Uma escada na parte traseira facilitou o desembarque das mulheres e crianças.

Os paus de arara olhavam curiosos e ressabiados o vaivém da cidade, que fervilhava com o garimpo da pedra mais cobiçada do mundo.

O menino Otávio viu alguns guris com varas de pesca passando perto do caminhão estacionado e achou aquilo diferente. Curioso, saiu de mansinho do grupo de baianos.

Observou a criançada pescar nas águas barrentas do rio que empresta o nome à cidade.

"Peixe; vige, isso é peixe, ôxente!", gritou quase inconscientemente o baianinho pouco acostumado com água corrente.

Os pequenos pescadores não gostaram da reação do estranho.

Caras feias o fizeram voltar depressa ao seu grupo.

Escureceu e os paus-de-arara procuraram suas redes para a última noite no caminhão.

Ao invés do movimento diminuir com a escuridão das ruas mal iluminadas, o vaivém aumentou, mas com um detalhe: não se via mulheres; apenas os homens caminhavam e a maioria tinha destino comum: a zona boêmia mais famosa de Mato Grosso à época, a Rua Bahia, repleta de cabarés com mulherio de cair o queixo e onde os garimpeiros que bamburravam lavavam o chão com cerveja Brahma de casco escuro.

O calmo Oeste baiano cedeu lugar ao burburinho de Poxoréu.

Do caminhão ouvia-se o som das eletrolas dos cabarés, que inundavam a noite alternando o bolerão Bésame Mucho, da mexicana Consuelo Velázquez, com o modão Mula Preta, de Raul Torres.

A barulheira não tirou o sono do pequeno Otávio, que acomodado numa rede armada ao lado de outras, na carroceria, deixou-se vencer pelo cansaço da longa viagem, pela emoção da descoberta da pesca e pelo fascínio com a terra mato-grossense.

Amanhece em Poxoréu e Otávio encanta-se com o azul do céu, o barulho das águas do rio e com a revoada barulhenta das araras e outros pássaros.

O grupo baiano é disperso. Parte vai para fazendas na vila de Paraíso do Leste.

Os solteiros pegam o rumo dos garimpos de diamante em Alto Coité, Raizinha e sabe-se lá Deus mais onde.

Algumas famílias esperam a vez de embarcar numa picape Willys para Jarudore.

Com o topete arrepiado pelo vento, Otávio desembarcou da carroceria da picape em Jarudore, de onde nunca mais saiu.

No dia seguinte, sua mãe o matriculou na Escola Estadual Franklin Cassiano da Silva, para concluir o aprendizado do abecedário e aprender a fazer as quatro operações.

– Como é seu nome guri? – pergunta a professora?

– Otávio – responde. –

Tem batistério ou certidão de nascimento?

– 'Tá' aqui – colabora a mãe, com a papelada nas mãos.

– Seu nome não é Otávio!

– Não, senhora! É Otaviano Francisco Vieira. Otávio é apelido – explica tímido, olhando para o chão batido da escola.

O apelido continua. Seo Otávio casou-se com dona Joselice no Cartório de Paz de Jarudore.

O casal tem duas filhas: Maria de Fátima e Elizete, ambas nascidas em Jarudore, e a exemplo do pai, ex-alunas da Escola Franklin Cassiano da Silva.

A epopeia da ocupação do vazio demográfico de Mato Grosso nas décadas de 1950 a 1970 aconteceu em silêncio, longe do olhar das grandes cidades e sem cobertura jornalística.

Motoristas ao volante de seus possantes, a exemplo do F-600, facilitaram a conquista da terra e o surgimento de distritos e municípios pela obstinação de pioneiros.

Otávio, em Jarudore, foi um deles.

Fonte: Por Eduardo Gomes da Reportagem DC

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